
No Centro Histórico de Cusco, você não vai precisar de um drone para capturar imagens panorâmicas da cidade fundada por Manco Capac e Mama Ocllo. A partir da Plaza de Armas, basta caminhar entre 15 e 20 minutos para chegar ao mirante do bairro San Cristóbal, onde seus olhos vão contemplar a grandeza urbana e natural do chamado “umbigo do mundo”.
San Cristóbal é um dos bairros históricos da “Cidade Imperial”. Suas origens remontam aos primeiros tempos do Estado inca, quando era uma área de armazenamento de produtos agrícolas que, segundo informações registradas pelos cronistas coloniais, era conhecida como Qolqampata — nome que, ao ser traduzido para o português, significa: área elevada (pata) com depósitos ou celeiros (qolqa).
E essa área elevada, a mais de 3.500 m acima do nível do mar, é perfeita para admirar Cusco quando o dia nasce ou quando o Sol se põe na hora do crepúsculo. As paisagens também são impressionantes sob o manto escuro da noite. Não tem erro. Visite uma ou mais vezes para que seus olhos se transformem nas câmeras de um drone que não precisa voar para revelar a geografia urbana da “Capital Histórica do Peru”.
Um bairro com história
Foi o corregedor, encomendeiro e cronista espanhol Juan Polo de Ondegardo y Zárate (Valladolid 1500–La Plata 1575) quem fundou, em 1559, a paróquia de San Cristóbal ao nordeste da Plaza de Armas de Cusco e ao sul do parque arqueológico de Saqsaywaman. No entanto, a história dessa pitoresca e tradicional área urbana remonta às origens da civilização inca.
Os “Filhos do Sol” chamaram essa área de Qolqampata ou Qolcampata, uma zona de andenes (terraços agrícolas) e qolqas (depósitos ou armazéns), onde teria existido o palácio de Manco Capac, fundador da cidade e primeiro inca. Conta a lenda que, junto com sua esposa Mama Ocllo, ele emergiu das águas do lago Titicaca (Puno) para criar uma civilização por ordem de seu pai, o Sol.
Quando o poder de Cusco se fortalecia nos Andes sob o governo de Pachacutec (o “Transformador do Mundo”), Qolqampata se tornaria o primeiro bairro fora do núcleo fundacional da cidade. Já na época colonial, os espanhóis dividiram o território cusquenho, entregando essa área, situada entre os rios Tullumayo e Saphi, a um dos descendentes da nobreza incaica.
A Igreja de San Cristóbal
Paullu Inca, filho de Huayna Capac e irmão de Huascar e Atahualpa — que se enfrentaram em uma guerra civil pelo domínio do império — manteve uma relação amistosa com os conquistadores ocidentais. Como reconhecimento por seu apoio e colaboração, os ibéricos lhe concederam terras em Qolqampata. Em 1543, o “Filho do Sol” decidiu se batizar, adotando o nome de Cristóbal Paullu Tupac Inca.
Convertido ao cristianismo, ele impulsionou a construção de uma capela, que recebeu o nome de San Cristóbal em homenagem à estreita amizade do cusquenho — que foi sepultado no templo — com Cristóbal Vaca de Castro, enviado ao Novo Mundo pelo imperador Carlos V, com a missão de mediar o conflito entre as hostes dos conquistadores Francisco Pizarro e Diego de Almagro.
A igreja de San Cristóbal foi erguida sobre as bases de uma huaca (templo) pré-hispânica. Em forma de cruz latina e com uma torre sineira com oito janelas, é a igreja situada na maior altitude da cidade. Por isso, sua praça ou átrio é um dos mirantes mais visitados de Cusco, tanto pela proximidade quanto pelas belas vistas do Centro Histórico, declarado Patrimônio Cultural da Humanidade.
Os caminhos até o mirante

A partir da Plaza de Armas (3.400 m acima do nível do mar), existem vários caminhos de acesso até a igreja e o mirante de San Cristóbal, atrações que compartilham o mesmo espaço urbano (3.500 m acima do nível do mar). Antes de partir, lembre-se de que você não precisa ser um atleta para chegar ao seu destino. A distância é relativamente curta (de 500 a 800 m, dependendo do caminho que você escolher) e a subida é de apenas 100 metros.
Você decide por onde seguir até o encontro com as ruas de pedra de San Cristóbal e com as vistas panorâmicas de Cusco. Recomenda-se subir pela Cuesta del Almirante (tendo a Catedral como referência) e continuar pelas ruas Ataúd e Arco Iris até chegar à rua Don Bosco. Nesse ponto, vire à esquerda para chegar à paróquia e ao mirante. Distância: 550 m. Tempo: 15 a 20 min.
Existem outros acessos pelas ruas Resbalosa e Ccoricalle. Em todos os casos, você chegará à rua Don Bosco — essa é a chave. Lembre-se sempre de que seu destino fica ao nordeste da Plaza de Armas. Se você gosta de caminhar em grupo, junte-se aos nossos free walking tours, que permitem conhecer o bairro de artesãos de San Blas e o mirante de San Cristóbal, o mais impressionante do principal destino do Peru.
O que você verá de San Cristóbal

Observar Cusco a partir do mirante de San Cristóbal não tem preço. A entrada é gratuita durante todo o dia. Então, escape para lá sempre que puder e seja testemunha de como a antiga capital do império inca muda quando o Sol brilha com intensidade ou quando as névoas que anunciam a chuva aparecem no horizonte. E também no momento em que as luzes da cidade se acendem, rasgando a escuridão da noite.
Um verdadeiro espetáculo no qual você verá, com olhos de pássaro ou de drone, a Plaza de Armas, chamada Huacaypata (“Lugar de Choro”) nos tempos pré-hispânicos; as igrejas coloniais erguidas sobre as pedras dos templos incas; as grandes casas construídas sobre os antigos palácios dos governantes cusquenhos; e os tradicionais bairros de San Sebastián e San Jerónimo, entre muitos outros detalhes urbanos.
As paisagens panorâmicas são emolduradas pelos picos andinos. A partir de San Cristóbal, é possível avistar o Ausangate, a montanha nevada de 6.384 m de altitude considerada um Apu. Na cosmovisão dos antigos cusquenhos, os apus são montanhas sagradas e protetoras. Em sua homenagem, realizam-se cerimônias e rituais com folhas de coca, chicha e outras oferendas.
As atrações do bairro
Aproveite sua visita ao bairro e ao mirante de San Cristóbal para conhecer também o aqueduto colonial de Sapantiana, que antes da chegada dos espanhóis foi um espaço espiritual e de veneração. Outro lugar pitoresco e perfeito para fotos no Instagram é a rua 7 Borreguitos, uma pequena e encantadora via de pedra que, tradicionalmente, era percorrida por pastores que guiavam pequenos grupos de ovelhas.
No bairro encontra-se o palácio de Qolqampata ou Qolcampata, construído por ordem de Manco Capac, fundador da civilização inca. Atualmente, ele faz parte da infraestrutura de um hotel, cujos proprietários restauraram seus muros de pedra. Por isso, vale muito a pena dar uma olhada nesse recinto histórico que fica em frente ao templo colonial de San Cristóbal.
Quem foi san Cristóbal?

No século III d.C., um homem forte chamado Réprobo estava determinado a servir ao rei mais poderoso. Em sua busca, chegou à conclusão de que o diabo era o mais forte; então, decidiu segui-lo e acompanhá-lo. Certo dia, enquanto caminhavam por uma estrada onde havia uma cruz, Satanás parou e mudou de rota. Surpreso, Réprobo percebeu que existia alguém ainda mais poderoso.
Quem seria?, perguntava-se, até que um velho ermitão lhe falou sobre Cristo e lhe deu um conselho: mude-se para as margens do rio, porque muitos viajantes morrem ao tentar atravessá-lo. Sua missão seria ajudá-los a passar. Em certa ocasião, uma criança pediu sua ajuda. Ele aceitou e a carregou sobre seus ombros. Ao chegar à outra margem, aquele menino se revelou como Jesus, o Filho de Deus.
A história de Réprobo é a de São Cristóvão de Lícia, o protetor dos viajantes. Por isso, sinta-se seguro em seu mirante e em seu bairro. Vale lembrar que, no dia 2 de agosto, celebra-se o padroeiro com tanta fé que a festa foi declarada Patrimônio Cultural da Nação em 2018. E não só isso: sua imagem é uma das que participam do fabuloso Corpus Christi de Cusco.
Dicas de viagem
*Proteja-se: se você for ao mirante de San Cristóbal durante o dia, use um chapéu ou boné. Aplique também protetor solar.
*Passo seguro: a pressa não é uma boa companheira. Caminhe com calma até o mirante para apreciar a monumentalidade urbana de Cusco.
*Não esqueça: leve sempre seu RG ou passaporte, caso precise se identificar.
*Dinheiro: embora a entrada seja gratuita, leve moedas e notas de pequeno valor para pequenos gastos.
*Visão: se você tiver binóculos, use-os no mirante. Você vai se surpreender.
*Precavido: leve água e alguns lanches, caso sua visita dure mais do que o previsto.


















































































